Movimentos

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A barbárie de Conan não é tão profunda como se possa pensar. Na verdade, após um olhar um pouco mais cuidado, o título português do filme (Conan E os bárbaros) parece mesmo bastante adequado. Porquê? O filme, como os contos de Robert E. Howard, mostra que o herói é mais do que um assassino bárbaro com uma vida de solidão povoada de deuses funestos, vilões poderosos e femmes fatales. Na verdade, é uma personagem complexa, atirada para uma vida improvável por deuses e homens.

Há três pontos fundamentais para a mitologia do filme. O primeiro é o momento em que o pai de Conan lhe explica a teogonia de Crom e dos titãs. As semelhanças com a mitologia grega e a ascensão dos deuses do Olimpo são completas, com a excepção do aspecto crucial que faz dos cimérios de Howard um povo especial: os deuses perderam o segredo do fabrico do aço, agora nas mãos dos humanos. Desde então, os cimérios são invejados pela sua técnica metalúrgica por deuses e homens, e desenvolveram uma afinidade reverencial com as armas que evoca as técnicas de esgrima japonesa. Aparentemente, parece ser o desejo de armas que leva Thulsa Doom a arrasar a aldeia natal de Conan.

O segundo ocorre na altura em que Conan discute mitologia (teologia) com o seu novo amigo arqueiro. Este diz que reza aos quatro ventos e acredita que o seu deus é superior a Crom, porque habita no céu infinito enquanto este habita num assento terrestre (uma montanha). A oposição aqui é entre um deus celestial, omnipresente, e um deus espectador, sentado no seu trono nas montanhas à espera de uma oportunidade para passar julgamento.

O terceiro momento é a oração de Conan a Crom. Poucos lhe chamariam uma oração. É mais uma chantagem, em que Conan diz que um deus não serve para nada se não nos ajudar quando mais precisamos…

Ficheiro:Arnold AS Conan.jpg

O que é o enigma do aço?

Não podemos confundir este aspecto da mitologia de Conan com o segredo do fabrico do aço. Deste já falámos. No tempo fictício das aventuras de Conan, a tecnologia dominante era a da idade do Bronze, mas encontra-se num estado decadente devido à destruição da Atlântida. É possível que os territórios em que Conan viaja fizessem parte de uma fronteira ou posto avançado da civilização perdida, que teria tecnologia superior. Esta hipótese parece ser apoiada pela descoberta, no filme, de uma ruína/túmulo onde o herói encontra uma Atlantean sword, que é feita de aço. Resta saber se os cimérios aprenderam a fabricar aço pelos atlantes, ou são um resto do povo mítico. Numa nota um pouco diferente, é de perguntar se os atlantes podem ser identificados com os gigantes da mitologia dos cimérios, derrotados por Crom com “fogo e vento dos céus” que fizeram “tremer a terra” e “lançaram os gigantes às águas”.

O enigma do aço é diferente. Embora os cimérios, como qualquer grupo em posse de um segredo, não separem o enigma das potencialidades da tecnologia do respectivo segredo “industrial” (cf. as guildas de pedreiros da Idade Média), reconhecem o mistério da disciplina do aço. Thulsa Doom explica - antes de crucificar Conan - que este segredo reside na indiferença do aço. O segredo está no braço e na mente que dirigem a espada, e não na própria espada. Como diz o pai de Conan, podemos confiar no aço. Ele corta sempre e, por isso, é mais fiável do que qualquer ser humano. Tal como os cimérios não usam o seu exclusivo da produção de aço agressivamente, também a mente harmoniosa não anseia poder, embora conserve o aço fiel, e as sociedades sãs mantêm forças de defesa. Thulsa Doom, sábio como é, teve a epifania de que a mente nua é mais perigosa que uma espada (com persuasão, argumentação, mistificação, etc.), mas tem sempre uma arma por perto. A diferença entre os dois (neste aspecto) é que Doom menospreza a mente de Conan, e este aprende com ele.

(originalmente publicado aqui)

3 years ago
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