No “aforismo” 101 de Minima Moralia, Theodor Adorno põe em questão a possibilidade de alguém cuja consciência se desenvolve muito cedo (early developer) poder ser feliz. Todos os planos, todas os horizontes de sentido que alguém pode dar à sua própria vida vivem, na precocidade, da falta de limites percebidos. Alguém que vive no presente o futuro dos outros está condenado a encontrar, no seu próprio futuro, uma imagem decaída das suas expectativas. Inversamente, o indivíduo que cresce sem atalhos encontra em cada fase do seu desenvolvimento a surpresa de desafios atempados - não precisa de correr em busca de um futuro.
Crescer “normalmente” seria, então, não viver em antecipação de uma legitimidade externa qualquer - seja da idade, seja de uma nova condição social ou profissional -, com confiança em si próprio e sem os riscos trágicos de prestar mais atenção ao que (ainda) não se pode alcançar do que àquilo que há a fazer agora. Como Adorno aponta, o narcisismo do early devolper deixa-o fragilizado na altura em que tem de se confrontar com os seus limites - com a chegada à idade adulta - e, por isso, fá-lo regredir para uma imaturidade marcada pela revolta contra a distância do presente em relação à sua concepção precoce do Eu.
O desequilíbrio entre a excepção da sua condição no início da vida auto-reflexiva e a banalidade da sua condição presente é, para Adorno, um reequilíbrio, ou seja, uma compensação psicossocial que torna os campos hierárquicos novamente suportáveis para os que não se distinguiam antes da idade adulta. Uma espécie de “justiça divina”, retribuição pela assimetria (desigualdade) dos talentos, asseguraria que ninguém está isento de mecanismos de sentido inverso à sua motivação pós-adolescente. Ou seja, para os slackers, a urgência de se organizarem pragmaticamente, no mesmo espírito do carpe diem típico da sua adolescência. Para os early developers, a hora da recompensa que as fantasias prometiam, mas a que a realidade não corresponde.
Talvez Adorno estivesse a ver isto mal. Não se trata de um mecanismo inexorável e impalpável. Simplesmente, passa a haver um campo de concorrência alargado, em que o pragmatismo e a adaptabilidade se sobrepõem a qualquer tipo de intelectualidade protegida - por muito competente que seja.